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Capitalismo x democracia

16/02/2018

Laerte Teixeira da Costa

 

A ideia é do ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, autor de um artigo "O capitalismo comerá a democracia - a menos que falemos" e que tem como tese a apropriação das formas de funcionamento das democracias pelos grupos econômicos, deformando-as e favorecendo o aparecimento de governos fortes.

No Brasil, o assunto foi levantado pelo ex-ministro Antônio Delfim Neto, afirmando que o poder econômico do País se apropriou do Congresso Nacional, antes o bastião de defesa das normas éticas de controle da vida nacional. Delfim, neste caso, é insuspeito.

Essa forma de cooptação não é nova. Inicialmente, os parlamentos foram manipulados pelos caudilhos e ou por ditaduras, governos que não escondiam o que eram. Apresentavam como forma de legitimação, a defesa do país contra um perigo iminente. Em nosso caso, o velho comunismo.

As ditaduras nem são mais necessárias. Hoje, a cooptação se faz pela corrupção e ela abarca tanto os políticos de esquerda quanto os de direita. Ninguém escapa e os partidos políticos são apenas uma das formas de permanência e continuidade da elite política nos postos chaves. Os partidos políticos, de fato, só existem para as formalidades eleitorais.

No atual congresso brasileiro, composto de 28 partidos, nenhum deles tem maioria. Começa pela inversão de valores na formação da "base de sustentação". Enquanto em democracias consolidadas, principalmente parlamentaristas, o governo emerge das urnas; entre nós, é depois das eleições que o presidente busca sua base de apoio, forjando-a nas trocas por cargos ou outras vantagens impublicáveis.

Como os partidos têm seus recursos, o sistema se auto protege e sobrevive, embora nada representem. Quem representa alguma coisa são as bancadas informais: bancada religiosa, bancada ruralista, bancada da bala, etc. São bancadas com dezenas de deputados, trocando favores entre si e impondo a pauta de votações, em geral permissiva, desreguladora e contrária aos interesses populares. Ninguém procura racionalizar os gastos ou modernizar a administração. A ordem é se locupletar.

Isso tudo proporciona o enfraquecimento da democracia e o aparecimento de messias oportunistas, prontos para buscarem o poder. Não é só entre nós. O populismo avança no mundo. A conceituada organização americana, não partidária, Freedom House, informou em seu relatório do ano passado que "a democracia está sob ataque e recua em todo o globo". Segundo ela, essa crise se intensificou à medida em que os padrões democráticos dos Estados Unidos estão se deteriorando.

Yanis Varoufakis assusta o capitalismo ao dizer que ele está fazendo uma espécie de autofagia e se aproximando de teses marxistas, aquelas que propalam sua autodestruição por sua própria forma de funcionamento predatório. No Brasil, com tanta volúpia e insensatez, o capitalismo está correndo o risco de assistir a senzala invadir a casa grande.

 

Artigo publicado no jornal Diário da Região do dia 16 de fevereiro de 2018.