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Associao de caladistas prev crescimento tmido em 2019

19/08/2019

Já ultrapassada a barreira da metade do ano, a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) estima um pequeno incremento nas vendas das companhias do setor até ao final de 2019. Em relação a 2018, a perspectiva é de uma elevação de 1,1% quanto à quantidade, alcançando 954,4 milhões de pares, e 2,9% em valores, atingindo faturamento de R$ 22 bilhões. O novo presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira, admite que, inicialmente, esperava-se um desempenho melhor para o segmento calçadista, mas a economia brasileira está demorando para reaquecer. O gaúcho de Rolante e administrador de empresas tomou posse oficialmente da presidência da Abicalçados em 1 de agosto, substituindo Heitor Klein, que esteve por 27 anos à frente da associação.

 

Jornal do Comércio - Qual a sua avaliação do mercado calçadista na primeira metade de 2019 e o que esperar até o final deste ano?

Haroldo Ferreira - O primeiro semestre terminou, e a expectativa que se tinha em janeiro não aconteceu. Esperava-se, com a mudança do governo, ter um incremento, e, até agora, não conseguimos crescer praticamente nada. A nossa expectativa, agora, é, no último quadrimestre, ter uma leve recuperação. A nossa projeção mais otimista não vai mais acontecer, mas acreditamos que o ano possa ter um crescimento sobre a base de 2018. A estimativa é de uma elevação de 1,1% em quantidade (atingindo 954,4 milhões de pares) e 2,9% em valores (alcançando R$ 22 bilhões em faturamento). Temos que conseguir esse número positivo para, pelo menos, em 2020, arrancarmos um pouco melhor, para a roda começar a girar.

JC - Por que o otimismo com a economia acabou não se confirmando na primeira metade do ano?

Ferreira - Porque a economia está travada. Todos os setores projetavam que, com a troca do governo, a economia teria um aquecimento, e isso se frustrou. O próprio governo demorou muito para conseguir emplacar algumas mudanças. A questão da reforma da Previdência, tinha uma expectativa de ser aprovada mais cedo.

JC - As empresas calçadistas nacionais estão percebendo algum reflexo com a guerra comercial travada entre Estados Unidos e China no cenário internacional?

Ferreira - Esse reflexo já aconteceu. As exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceram 40% (nos primeiros sete meses do ano) em relação ao ano passado. Já se colheu frutos dessa guerra, e acreditamos que podemos aumentar mais 5 pontos percentuais até o final de 2019, em função dessa situação. O setor calçadista não está tão ruim em função da exportação, apesar da Argentina, que é o segundo maior país importador, atrás somente dos norte-americanos. Se olhar em valores, enquanto os Estados Unidos aumentaram 40%, a Argentina caiu 37%, reflexo da crise econômica nesse país. Hoje, 85% da produção nacional é destinada ao mercado interno, e o restante, para exportação.

JC - O patamar atual do câmbio é benéfico ou prejudicial para o setor?

Ferreira - Está bom. O número ideal é entre R$ 3,60 e R$ 3,80. Quando ultrapassa esse limite, é positivo (para as exportações), mas há reflexos depois, pois parte dos insumos são importados e desregula a economia. Abaixo de R$ 3,60, prejudica as exportações.

JC - O que representa substituir no comando da Abicalçados o ex-presidente Heitor Klein, que ficou 27 anos no cargo?

Ferreira - É uma missão muito difícil. O próprio setor calçadista ou a história da Abicalçados se confunde um pouco com a história do Heitor, que tem reconhecimento internacional. Esse processo de sucessão foi todo alinhado com o próprio Heitor. Eu vim, exclusivamente, me dedicar à Abicalçados em fevereiro, fiquei até o dia 31 de julho no cargo de diretor. A partir de agosto, assumi como presidente, e o Heitor continua como diretor na entidade, até 31 de dezembro, e, a partir de 2020, ele segue como consultor da associação.

JC - No cenário macroeconômico, quais são os tópicos que a Abicalçados tem acompanhado?

Ferreira - O primeiro deles é a reforma tributária, que impacta diretamente o nosso setor. A reforma beneficia toda a economia, e temos convicção que tem que ser feita. Um dos pontos que está claro em qualquer uma das propostas apresentadas até agora é que, em um primeiro momento, não tem como reduzir a carga tributária, que é um problema do País. Mas uma reforma deixará mais fácil, mais simples, a administração das próprias empresas, reduzindo um pouco o custo Brasil. Outro ponto que tem que ser abordado é a guerra fiscal.

JC - Mais alguma preocupação?

Ferreira - Estamos trabalhando e acompanhando a questão da abertura econômica. Esse governo deixou bem claro que vai abrir a economia, e isso tem nos preocupado. Nós achamos que tem que ter uma economia aberta, porém, para abrir a economia, temos que reduzir o custo Brasil. Não podemos simplesmente baixar uma taxa de importação que hoje é de 35% para 15%, que foi a sinalização passada, se não reduzir no mesmo nível o Custo Brasil.

JC - Como a guerra fiscal tem refletido no setor?

Ferreira - O Rio Grande do Sul, por exemplo, enfrenta a falta de competitividade em relação a Santa Catarina. O mesmo problema que o setor calçadista gaúcho enfrenta os paulistas têm com a concorrência de Minas Gerais. Isso, com uma reforma tributária, vai começar a ser equalizado. O problema é o tempo que vai ser necessário para resolver essas divergências.

JC - Atualmente, qual é a diferença da carga tributária entre os setores calçadistas gaúcho e catarinense?

Ferreira - Em torno de 10% a menos, em Santa Catarina, no produto final.

JC - O Nordeste segue atraindo empresas calçadistas do Rio Grande do Sul para os estados daquela região?

Ferreira - O Nordeste continua sendo um grande polo atrativo, contudo a migração, não que não aconteça, diminuiu muito nos últimos anos. As vantagens não são tão significativas hoje. Há 20 anos, tinha uma grande diferença quanto à mão de obra e tributária. A diferença a respeito da mão de obra, no momento, basicamente não existe mais. Então sobra somente a questão tributária.

 

Fonte: Jornal do Comércio - RS